sábado, 18 de fevereiro de 2017

O Maracanã e a total falta de transparência e responsabilidade no futebol e no esporte brasileiro...

As três republicações abaixo são textos de autoria do excelente trabalho de jornalismo investigativo do blog de Gabriel Moreira, da ESPN (http://espn.uol.com.br/blogs/gabrielamoreira). O futebol brasileiro e a mídia esportiva brasileira precisa de muitas Gabrielas Moreiras... Seguem três textos de assuntos direta ou indiretamente ligados ao Consórcio Maracanã e à Odebrecht.  


Venda do Maracanã atrasa por impasse sobre quem vai pagar estragos da Rio 2016 (publicado em 17/02/2017)

Prevista para esta sexta-feira (17/02), a resposta de quem vai ficar com o Maracanã não sairá tão rapidamente como se esperava. As conversas da Odebrecht com as interessadas Lagardère e GL Events estão sendo mais complicadas do que se supunha. O principal motivo: quem vai pagar pelos estragos feitos pelo Rio 2016 nas estruturas do estádio? A questão colocada leva à uma infeliz constatação. A de que a Olimpíada, melhor dizer, Carlos Arthur Nuzman e sua turma, conseguiram depreciar o valor do estádio que já foi um dia o maior do mundo.

A expectativa era de que, com pressa e concorrência, os dois grupos interessados acabassem assumindo a obrigação - que era do comitê - de fazer as obras e consertos necessários para depois cobrar as responsabilidades, mesmo que seja na Justiça. Acontece que nenhum dos dois grupos topou tamanha caridade, até agora. Muitas perguntas estão sem resposta: quanto vai custar consertar tudo o que foi destruído? O quê exatamente foi destruído pelos dirigentes olímpicos e o que foi causado pelo abandono pós evento? Quem paga essa conta? 

O quanto a Odebrecht é responsável pelo abandono é outra pergunta a se fazer. Em dezembro - após os Jogos - o Maracanã estava funcional. Em que pese os custos do conserto do gramado tenham sido assumidos pelos usuários, como o Flamengo, que arcou com o remendo do campo para tapar o enorme buraco deixado pelo comitê. A partir de então, o Maracanã foi abandonado. Por quem, exatamente? 

O valor da compra, avaliado em cerca de R$ 60 milhões, pode ser menor se o vencedor aceitar arcar com os custos ainda não calculados. Se isso ocorrer, perde a Odebrecht que terá de cobrar do Estado o não cumprimento do contrato. O impasse na mesa de negociações se arrastara, no mínimo, pela próxima semana. Para se ter uma real noção do prejuízo, os três negociadores terão de embarcar em diligências técnicas pelo estádio para avaliarem o quanto se gastará com os reparos necessários.

Uma conta, que ninguém quer pagar. Mas cujas responsabilidades estavam bem definidas no contrato de cessão do estádio, firmado entre o Governo do Rio, com a assinatura do governador Luiz Fernando Pezão, e o Rio 2016, sob responsabilidade do vice-geral Leonardo Gryner.

Ao se ler o contrato, parece-se estar entrando num conto teatral. São 13 páginas adornadas por carimbos, direitos e deveres. Dos direitos, nenhum em prol do Estado e da sociedade, até cláusula informando que o Rio não poderia usar a marca do comitê havia.

"O Autorizante (Governo) e Interveniente (Odebrecht) não poderão intitular-se "Fornecedor oficial dos Jogos", tampouco, "mencionar em seu material publicitário, de marketing ou em campanhas (...) o fato de prover produtos e / ou serviços ao Autorizado (Rio 2016)".

A "Carta Olímpica" e seus ideias também é citada no contrato. Deveriam Odebrecht e Estado do Rio, se submeterem aos seus conceitos e valores.

Mas há também obrigações por quem tomou emprestado, como:

"utilizar, preservar, manter e guardar a área cedida (...) com o dever de cuidado necessário a evitar danos à instalação, ressalvados os desgastes naturais (...) devolvendo no mesmo estado em que recebeu".

Um documento que foi redigido sob a batuta dos grandes conselheiros jurídicos de Carlos Arthur Nuzman. Aqueles que este Blog já mostrou quem eram e quanto ganharam com o sonho olímpico.

Um contrato que até agora não saiu do papel e tem sido rasgado a cada dia que passa. Mais um para a conta da nebulosa relação entre as turmas do Cabral, das empreiteiras, e dos anéis olímpicos.

Escritório de advogado com quem Nuzman 'pularia do precipício' recebe R$ 18,8 mi da Rio 2016 (publicado em 18/02/2016)

Entre os contratos do comitê Rio 2016 há pelo menos 11 escritórios de advocacia. Juntos, custam à entidade organizadora da Olimpíada pelo menos R$ 24 milhões. Entre os escritórios, um chama mais a atenção: H.B. Cavalcanti e Mazzillo Advogados, do amigo e advogado pessoal do presidente do comitê, Carlos Arthur Nuzman, por quem o dirigente disse certa vez que "pularia do precipício".

Somente para a empresa do colega de profissão, Nuzman destina R$ 18,8 milhões, o que significa cerca de 80% de toda a verba empregada em serviços advocatícios do comitê no Brasil. As informações fazem parte de documentos obtidos pelo blog, tratados como sigilosos pela entidade.  

"Com quem o senhor pularia de um precipício de olhos fechados?", perguntou a repórter Dorrit Harazin em entrevista publicada em 2010 pela revista Piauí. "O Havelange certamente é um deles... eu acho que têm alguns... tem de ser no Brasil? ... acho que o Leonardo Gryner... o Sergio Mazzillo, meu advogado e colega de tantos anos", respondeu Nuzman à reportagem. .

Embora a relação seja pública, os serviços prestados pelo escritório não são revelados pelo comitê. A assessoria de imprensa do órgão afirma que não pode dar nenhum detalhe da contratação para não infringir "lei federal que garante sigilo entre clientes e advogados". O comitê informa, no entanto, que o escritório não foi contratado para representar o Nuzman como pessoa física, somente na pessoa jurídica.

Entretanto, fora do comitê, o Mazzillo pessoa jurídica mantém relação profissional com a pessoa física de Nuzman, como se observa de rápida pesquisa na internet em processos movidos pelo dirigente, inclusive, contra jornalistas.

Demais escritórios não chegam a 20% do recebido por Mazzillo

Os outros escritórios brasileiros contratados pelo Rio 2016 são (na ordem de valores): Loureiro Maia, por R$ 2,8 milhões, Daudt, Castro E Gallotti Olindo Advogados, R$ 1,7 milhão, Chediak, Lopes da Costa, C, M C, R, A, Advogados, R$ 450 mill , Lins de Vasconcelos Sociedade de Advogados, R$ 180 mil, Pedro Calmon Filho & Associados, R$ 144 mil, Damas e Pereira Advogados Associados, por R$ 5,1 mil.

Além das empresas brasileiras, o comitê mantém contrato com escritórios de advocacia em Londres, para cuidar de assuntos relacionados a ingressos, em Miami, para o contrato de aluguel de navios que serão usados como hotel durante os Jogos, em Lausanne, na Suíça, para atuar junto ao Comitê Olímpico Internacional (COI) e em Washington, para assuntos de direitos autorais.

A existência dos prestadores de serviços estrangeiros foi informada por iniciativa da assessoria de imprensa. "Dos escritórios internacionais podemos falar", disse Mário Andrada, diretor de Comunicação do Rio 2016, mas não revelou valores.

Nesta semana, publicamos matéria sobre os gastos com a segurança do comitê, entre elas, revelamos a existência de uma empresa contratada especialmente para cuidar da segurança privada e pessoal do presidente, a SL Quatro Segurança e Vigilância. Na ocasião, o Rio 2016 disse que não poderia dar informações a respeito da contratação alegando se tratar de "questões sigilosas". E argumentou que não devia prestar contas públicas por serem financiado por patrocinadores privados.

O blog voltou a questionar o tratamento dado aos pedidos de informação e a assessoria de imprensa respondeu que foram dois questionamentos - a segurança e os advogados - de natureza sigilosa.

"Não acho que estamos faltando com a transparência, desoneramos a sociedade como nunca foi feito na história dos jogos", respondeu o diretor.

Dívida 'misteriosa' de R$ 30 milhões com Odebrecht pode fazer Botafogo perder jogadores (publicado em 13/02/2017)
    
Uma fatura milionária cujos bastidores são guardados a sete chaves ameaça o futuro do Botafogo. Quase R$ 30 milhões de uma dívida que o clube tem com a Odebrecht que envolve como garantias de pagamento os direitos econômicos de 88 jogadores entre atletas que ainda estão em General Severiano, como o goleiro Jeferson, e outros que já deixaram o Rio, caso de Vitinho, Gabriel, volante, e o lateral Gilberto. Contraída em fevereiro de 2014, a dívida deveria ter sido paga até o ano passado. Mas até agora, nenhum centavo foi pago.

A Odebrecht parece não querer receber, embora esteja em grave crise institucional e financeira desde o início da Lava-Jato. Não só o clube nunca foi acionado para receber, como jogadores envolvidos nas garantias não foram procurados para tratar do assunto. O Blog entrou em contato com empresários responsáveis pela carreiras de alguns dos atletas cujos direitos foram empenhados e nenhum deles sequer tinha conhecimento de tal negociação.

Passivo da gestão de Maurício Assumpção, não se sabe qual foi o motivo do empréstimo. O contrato foi assinado e é válido, mas estranhamente não passou pela aprovação do Conselho Deliberativo do clube. Mais estranho ainda é o fato de a Odebrecht não ter feito qualquer gesto na tentativa de receber o dinheiro.

Quando os milhões entraram na conta do Botafogo, a Odebrecht estava em meio a uma briga com o Flamengo para que o mesmo assinasse com o Maracanã, administrado pela construtora. Sem a assinatura com pelo menos dois clubes, a concessão poderia ser contestada. O Fluminense já havia garantido contrato de longa duração, mas faltava o rubro-negro. O então chamado Engenhão, agora Nilton Santos, seria uma opção para o clube, mas era administrado pelo Botafogo. Na época, suspeitou-se que o valor seria uma forma de fidelizar o clube alvinegro aos interesses da empreiteira, mas nada foi provado.

Não se sabe, também, quem intermediou o empréstimo milionário. Nas investigações da Lava-Jato, o nome do Botafogo é citado como apelido do deputado Rodrigo Maia, botafoguense e filho do prefeito César Maia, responsável pela construção do então chamado Engenhão. A obra foi finalizada pela Odebrecht, após saída de um consórcio anterior formado pelas empresas Delta, Racional e Recoma.

O valor devido está devidamente declarado nos balanços financeiros do Botafogo. Em 2014, eram 23.729 milhões. No de 2015, último publicado, o valor já estava em R$ 28.769 milhões. Não se sabe em qual empresa do grupo Odebrecht estaria declarado o valor emprestado ao clube. Na declaração do clube, a rubrica aparece em nome de Odebrecht Part.

Procurada, a Odebrecht se nega a dar qualquer informação sobre o empréstimo. A reportagem procurou a empresa pelo menos duas vezes no último ano para tratar do assunto, mas não teve qualquer informação. A atual gestão do Botafogo prefere não falar sobre a dívida, pois alega que também é vítima do problema. O ex-presidente do clube, Maurício Assumpção não foi localizado.