domingo, 15 de outubro de 2017

O Flamengo nem sempre foi um time de chegada...

Os Anos 1980 construíram o mito do Flamengo como sempre sendo um time de chegada. Os fatos que levam a esta teoria são mais profundos que isto. Um clube de massa, em constante estado de semi-erupção, que construiu as lendárias e quase sempre constantes "Crises na Gávea", que dificilmente permitiam uma estabilidade capaz de manter o time do Flamengo entre as primeiras posições. Era raro uma estabilidade que jogasse o time para a ponta além dos limites estaduais, e quando isto acontecia, a massa, o Maracanã e a atmosfera própria do Flamengo transformavam tudo em euforia, contagiante e inflamada, que fervia o sangue e empurrava, gerava um gás extra. Se deixar chegar, ninguém segura o Flamengo... assim nascia mais um mito...

Até 1979, o Flamengo só havia conquistado efetivamente um título de futebol em disputas oficiais além dos limites do Rio de Janeiro, quando foi campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1961.

Nas 16 vezes em que disputou o Rio-SP entre 1950 e 1966, além do título em 1961, em só outras três vezes chegou entre os três primeiros, nas edições de 1957, 1958 e 1959. Ou seja, em 25% (4/16) das vezes esteve em 1º, 2º ou 3º, e dentro destas em 25% (1/4) delas foi campeão. A posição que mais vezes alcançou, lembrando que era um torneio disputado sempre por 10 clubes, foi o 4º lugar, obtido em 1951, 1955, 1962, 1964 e 1965. Portanto, em 56% (9/16) das edições que jogou neste período, o clube terminou em 1º, 2º, 3º ou 4º, e dentro destas em 11% (1/9) delas foi campeão. Do total, em 44% das participações (5/9) não chegou entre os quatro primeiros colocados.

De 1967 a 1970 houve a expansão do torneio para clubes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná, na disputa do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que muitas décadas depois passou a ser considerado título de Campeonato Brasileiro. O número de participantes quase dobrou. Nas 4 edições deste período, o Flamengo só ficou 1 vez entre os 10 primeiros, obtendo um 6º lugar em 1970. Nas edições do Campeonato Brasileiro de 1971 a 1973 também não esteve nenhuma vez entre os 10 primeiros, com o ápice negativo sendo o 24º lugar em 1973. Depois disto, de 1974 a 1978 foram cinco edições seguidas entre os dez melhores colocados, mas sempre entre o 5º e o 9º lugar. Em 1979 voltou a ficar fora do Top 10. Resumindo, de 1967 a 1979, em 13 edições que disputou, o Flamengo não ficou nenhuma vez entre os 4 primeiros, ficou 6 vezes entre 5º e 10º (46%), e em 54% de suas participações (7/13) não ficou entre os 10 primeiros colocados. Estava semeado o terreno para o nascimento do mito "Time de Chegada". Nunca venceu, mas nunca chegou, os melhores desempenhos foram com um 5º lugar em 1976 e em 1978.

Veio então a Era de Ouro da história do Flamengo, os Anos 1980, que pode,para efeito de análise ser estendido até 1992, quando voltou a ser campeão. De 1980 a 1983, o Flamengo foi três vezes campeão brasileiro (1980, 1982 e 1983), e foi campeão da Libertadores e Intercontinental em 1981. Quando enfim chegou, venceu. De 1980 a 1992, em 13 edições de Brasileirão, todas as 5 vezes em que o Flamengo chegou entre os quatro melhores, ele foi campeão (1980, 1982, 1983, 1987 e 1992). Em 11 das 13 participações (85%) o clube chegou entre os 10 melhores, tendo sido 5º colocado em 1984 e 6º colocado em 1981 e 1988, portanto em 62% das vezes (8/13) foi Top 6, tendo sido campeão em 63% das vezes (5/8) que esteve entre os 6 melhores. Só não foi Top 10 em 1986 e em 1991.

Estava construída a tradição como "time de chegada", ou mais no popular, "deixou chegar, já era". Uma década de muitas conquistas (Anos 1980) após uma década de muitos fracassos (Anos 1970) e a força coletiva da Nação Rubro-Negra escrevia esta máxima.

Para reforçar a máxima, nas 14 edições de Campeonato Brasileiro de 1993 a 2006, o clube não chegava mais. Conseguiu um 5º lugar em 1998, e duas vezes um 8º lugar, em 1993 e 2003. Portanto, só 21% (3/14) das edições esteve entre os 10 melhores. Em 64% das edições (9/14) esteve entre um 11º e o 19º lugar, e em 15% não esteve sequer entre os 20 melhores. Reforçava-se o mito de que não era campeão porque não conseguia chegar. As crises constantes não deixavam o clube chegar...

Ao mesmo tempo, porém, o Flamengo chegou nas competições de mata-mata que foram criadas de 1988 em diante - Copa do Brasil, Supercopa, Copa Mercosul, Copa Sul-Americana - e muitas vezes não foi campeão. O mito de que se deixasse chegar, era título certo, não se confirmava. E o Flamengo chegou à final destes torneios com bastante frequência entre 1993 e 2006. Em 8 destes 14 anos (57%) o Flamengo chegou a uma final, em 1993, 1995, 1997, 1999, 2001, 2003, 2004 e 2006. Foi campeão apenas 2 vezes, da Copa Mercosul de 1999 e da Copa do Brasil de 2006, portanto, apenas em 25% das oportunidades (2/8).

Daí para frente, em competições mata-mata, chegou às finais da Copa do Brasil de 2013 (campeão) e da Copa do Brasil de 2017 (vice-campeão). O que se nota é um desempenho decrescente no tempo dos Anos 1980 em diante, uma constatação similar à que chegou-se aqui nas análises: Flamengo ganhando respeito na América do Sul de 1981 a 2001, e Flamengo perdendo respeito na América do Sul de 2002 a 2017.

As derrotas em final aconteceram de todas as formas. Três delas foram em disputas por pênalti (1993, 2001 e 2017), as três após dois empates e as três com o primeiro jogo no Maracanã e o segundo fora de casa. Outras três delas diante de um Maracanã lotado no segundo e decisivo jogo (1995, 1997 e 2004), e uma vez foi amplamente dominado na final (2003).

Eis as vezes nas quais o Flamengo chegou mas não foi campeão:

1993 - Vice-campeão da Supercopa

O Flamengo fez a final contra o São Paulo, que vivia uma fase muito melhor, bi-campeão da Libertadores e Mundial. Ainda assim, foram dois empates, o primeiro no Rio de Janeiro e o segundo em São Paulo, e um título que escapou na decisão por pênaltis.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Supercopa 1993



1995 - Vice-campeão da Supercopa

No Ano do Centenário, o Flamengo enfrentou ao Independiente de Avellaneda na final. Sucumbiu após uma derrota por dois gols na Argentina, que não conseguiu reverter num Maracanã lotado. Fez uma campanha linda, que tirando a derrota no primeiro jogo da final, só teve vitórias, sequer um empate. Em 8 jogos, 7 vitórias e 1 derrota.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Supercopa 1995



1997 - Vice-campeão da Copa do Brasil

Após dois empates contra o Grêmio, o primeiro em Porto Alegre e o segundo no Rio de Janeiro, o Flamengo acabou perdendo o título pelo critério de desempate, por ter sofrido mais gols como mandante.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Copa do Brasil 1997



2001 - Vice-campeão da Copa Mercosul

Após dois empates contra o San Lorenzo de Almagro, o primeiro no Maracanã e o segundo na Argentina, o Flamengo pela segunda vez em sua história deixou um título escapar na disputa por pênaltis.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Copa Mercosul 2001



2003 - Vice-campeão da Copa do Brasil

O Flamengo foi amplamente dominado na final contra o Cruzeiro, que viveu um ano fantástico, tendo conquistado uma Tríplice Coroa, Campeão Mineiro, Campeão Brasileiro e Campeão da Copa do Brasil.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Copa do Brasil 2003



2004 - Vice-campeão da Copa do Brasil

A mais sofrida de todas as derrotas numa final. Diante do modesto Santo André, depois de empatar o primeiro jogo em São Paulo, diante de um Maracanã lotado, podendo empatar por 0 x 0 ou por 1 x 1 que seria campeão, o Flamengo perdeu o título.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Copa do Brasil 2004



2017 - Vice-campeão da Copa do Brasil

Pela terceira vez em sua história o Flamengo deixou escapar um título numa disputa por pênaltis. Diante do Cruzeiro, dois empates, o primeiro no Rio de Janeiro e o segundo em Belo Horizonte. Num ano de forte investimento da diretoria rubro-negra no elenco, o título escapou.

Ficha Técnica: Vice-campeão da Copa do Brasil 2017