sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Palavra dos interessados na aquisição do Consórcio Maracanã


A Odebrecht não quer mais o Maracanã. A empreiteira perdeu dinheiro com o estádio desde o início da concessão, em 2013, e hoje quer vendê-la para outra empresa ou outro consórcio para tirar o time de campo. Dois grupos apareceram como favoritos. De um lado, está a francesa Lagardére e a brasileira BWA – ambas formam a Luarenas e administram o Castelão, em Fortaleza, e o Independência, em Belo Horizonte. Do outro, está a CSM, amparada por uma aliança com o Flamengo e acordos para formar um grupo com a holandesa Amsterdam Arenas e a francesa GL Events. No intuito de entender qual será o futuro do estádio que sediou a final da Copa do Mundo de 2014 e custou mais de R$ 1,2 bilhão, dinheiro público, para ser reformado, ÉPOCA entrevistou executivos de ambos os lados. O que eles propõem para o Maraca?

CSM

O plano inicial de Carlos Eduardo Caruso Ferreira, o Cadu, sócio e CEO da CSM, era participar de uma nova licitação que, ele almejava, seria realizada pelo governo do Rio de Janeiro. Com novas regras. Entre elas a possibilidade de o Flamengo, parceiro, participar da gestão, algo proibido na concessão atual. Como os ventos políticos sopraram para a venda da concessão por parte da Odebrecht, a CSM se juntou a duas outras empresas, GL Events e Amsterdam Arenas, e se credenciou a comprar a concessão da empreiteira. Cadu afirma, na entrevista, que o grupo atende a todos os requisitos que o governo fluminense exigiu na licitação original – inclusive o financeiro, de as empresas terem um capital de R$ 78 milhões. Mas o trunfo da CSM, mesmo, são os pré-acordos com Flamengo e Fluminense, ambos parceiros da companhia em outras áreas. “Criamos um modelo em que os clubes estarão satisfeitos”, diz o empresário.

ÉPOCA: Havia a possibilidade de uma nova licitação com novas regras para o Maracanã, mas a possibilidade hoje tratada como mais provável é a de transferência da concessão por parte da Odebrecht. A CSM decidiu apresentar uma proposta?
Cadu Ferreira: Sim. Fizemos uma proposta. Nossa visão é a mesma do Flamengo. Todos gostaríamos que tivesse uma nova licitação porque você começa o processo do zero, mas, uma vez que foi definido pelo governo que o melhor processo é a venda, nós fizemos a proposta. Só para deixar claro, não estamos falando da compra da concessão, mas a empresa que fez a concessão, o Complexo Maracanã S.A.

ÉPOCA: A compra envolve valores? Hoje a Odebrecht pede dinheiro?
Cadu Ferreira: Sim, tem um valor a ser pago para a Odebrecht.

ÉPOCA: Os senhores estão com a GL Events e a Amsterdam Arenas? Quais os papéis delas?
Cadu Ferreira: As duas empresas estão fechadas com a gente num processo para comprar essa empresa. Eu não preciso tecnicamente formar um consórcio. Nós compramos juntos cada um com uma participação. O que tem de ficar claro é que nós, a GL e a Amsterdam Arenas, fizemos uma proposta de compra com condições vinculantes que precisam ser cumpridas. Por exemplo: esse processo depende de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão que já vinha sendo discutido com a Odebrecht. A gente tem de entender quais são as condições finais do contrato a ser reequilibrado. Também queremos um processo de due diligence dessa empresa. Precisamos entender profundamente que tipo de passivo pode aparecer. Como em qualquer processo de compra de empresa você faz a proposta, o due diligence precisa ser bem-sucedido, e dependendo do que sair dele a proposta pode morrer ou pode ser rediscutida em termos de valor. É nesse passo que a gente está. Se todas as etapas forem cumpridas, vamos finalizar esse processo de compra.

ÉPOCA: A AEG, que tem 5% do Complexo Maracanã S.A. atual, pode permanecer no negócio?
Cadu Ferreira: Essa possibilidade foi aventada. Ela pode permanecer no complexo como acionista. Ela nos disse que, se a gente vier a ser bem-sucedido, ela poderia ter interesse em ficar.

ÉPOCA: O reequilíbrio foi negociado pela Odebrecht por muito tempo porque eles iam demolir o parque aquático Júlio Delamare e o estádio de atletismo Célio de Barros, que dariam lugar a empreendimentos como shopping e estacionamentos. Como os senhores lidam com isso?
Cadu Ferreira: O resultado do estudo que foi feito é limitar o complexo para Maracanã e Maracanãzinho. É o que está sendo discutido neste momento.

ÉPOCA: Só com Maracanã e Maracanãzinho é um complexo viável?
Cadu Ferreira: Ele é viável desde que você tenha os clubes de futebol num acordo harmonizado, ou seja, que a gente tenha uma situação em que os clubes estão felizes em jogar a maior parte do tempo no Maracanã. Isso é muito importante porque a gente tem de lembrar que o Maracanã é um estádio de futebol. O core business do Maracanã é o futebol. Mesmo que boa parte da receita do negócio não venha do futebol, e não tem de vir mesmo, se você tiver situação de conflito ou instabilidade com os clubes, todo o entorno sofre. Você não consegue fechar contratos de patrocínios em que não se tem visibilidade clara de que tipo de futebol vai ter ali. Ou não consegue sequer chegar ao potencial. Você fica abaixo dele. Você não consegue fazer vendas de camarotes em contratos de longo prazo enquanto um clube diga que talvez jogue ali os próximos jogos, mas talvez não. Você precisa pacificar a relação com os clubes de futebol. Se você não tem isso, nenhum estádio que tem isso pacificado consegue viabilizar o resultado econômico. Para nós, esse é o ponto mais crítico, o primeiro que fomos resolver quando apareceu a possibilidade de avaliar a compra do Maracanã. A gente tem condições de criar um modelo em que os clubes estarão satisfeitos. Primeiro chegamos a essa solução e só depois fomos fazer a proposta de compra do ativo.

ÉPOCA: Então os senhores já conversaram com os clubes. Com o Flamengo a parceria dos senhores é pública. Com o Fluminense há um contrato deles com a Odebrecht. Como fica o Fluminense?
Cadu Ferreira: Nossa relação é ótima, o Fluminense já tem um contrato que no limite será cumprido porque é um contrato com o complexo, com a empresa. Mas existe uma situação de muito boa vontade do clube de discutir melhorias nesse contrato para ambas as partes. É uma situação que a gente já discutiu e tem relativamente bem negociada. Estamos tranquilos. Obviamente que agora há um novo presidente [do Fluminense, Pedro Abad], a gente precisa sentar com ele para conversar, mas já temos um pré-acordo com o Fluminense para melhorar o contrato atual.

ÉPOCA: Flamengo e Fluminense falam em construir estádios próprios. Os senhores consideram essa possibilidade no plano de negócios para os próximos 32 anos do Maracanã?
Cadu Ferreira: Eu não posso falar em nome dos clubes sobre os planos estratégicos deles, mas entendo que, se a gente conseguir finalizar a compra do consórcio da maneira como a gente propôs, não haverá mais necessidade de o Flamengo procurar ou construir outro estádio. Essa questão é bastante simples. Uma vez que o Flamengo está com situação equacionada no Maracanã, ele não precisa de outro lugar para jogar. Mas, de novo, é com os clubes. Eu nem tenho autonomia para falar das decisões do clube.

ÉPOCA: Pergunto pelo lado dos senhores mesmo. Porque se um clube sai, quebra o negócio.
Cadu Ferreira: Mas a gente só vai adiante numa proposta se ela estiver amarrada com os clubes de futebol. Eu só faço um processo de compra de uma concessão por 32 anos se tiver contratos espelhados com Flamengo e Fluminense por 32 anos.

ÉPOCA: Hoje o Fluminense tem uma arquibancada para ele, tem as receitas dela e não paga as despesas. O Flamengo tem um contrato diferente no qual divide receitas e despesas de tudo. Os senhores preveem alguma outra fórmula muito diferente dessas para o Maracanã?
Cadu Ferreira: O modelo que temos discutido com o Flamengo é o clube ser dono das receitas ligadas ao jogo de futebol. Se o clube é dono do conteúdo, ele precisa ter as receitas do futebol. Bilheterias, tudo o que acontece dentro do jogo que gera receita. Isso até hoje não aconteceu e que no nosso caso vai acontecer. O clube é dono do evento dele.

ÉPOCA: E como fica o negócio do estádio? Boa parte das receitas está ligada ao jogo.
Cadu Ferreira: Nós temos receitas de patrocínios, que no nosso plano de negócios têm um valor interessante. Temos receitas ligadas ao tour do estádio, que muitas vezes as pessoas subestimam. O Maracanã é o segundo ponto mais visitado do Rio de Janeiro, e a gente pode melhorar muito o período de visitação. Durante o período em que o Maracanã esteve fechado pós-Jogos Olímpicos paravam ônibus com turistas que pediam para que alguém abrisse a porta. Tem um potencial significativo com a melhoria do conteúdo de visitação. Tem uma receita ligada a eventos, que não jogos de futebol. Não só os grandes shows, porque nem tem espaço para uma quantidade enorme. Temos calendário para quatro ou cinco megashows. Mas todo evento corporativo, festas, enfim, isso também gera uma receita interessante. E tem outras questões como a possibilidade de criar coisas no entorno do Maracanã. Obviamente, preciso entender a parte de licenças, mas dá para criar vida econômica para o estádio que transcende o jogo de futebol. Ter uma academia, um pátio gastronômico. Se tivermos uma gestão eficiente de custos, então o estádio é viável independentemente das receitas do jogo de futebol, que vão ficar com o clube de futebol. Isso é muito importante. Temos a necessidade de controle absoluto dos custos do estádio dentro de uma lógica de eficiência. A gente consegue fechar a conta com as linhas de receita que falei.

ÉPOCA: O que dá para cortar em relação a custo?
Cadu Ferreira: Não diria cortar, mas otimizar. Por exemplo, a forma de contratação de energia elétrica. Hoje existem maneiras de comprar energia de uma forma mais eficiente do que a forma que me parece estar sendo feita. Como fazer investimentos para modulação. Hoje, se você quiser ligar o ar-condicionado do estádio, você tem de ligar o ar do estádio inteiro. Você não tem condição de modular. Há coisas que vamos ter de fazer investimentos para poder gerir o estádio de forma mais inteligente, mas pelas análises que fizemos há várias áreas com potencial de melhoria. Para ser justo, se você olhar os balanços dessa empresa, ela veio melhorando todos os anos. De 2013 para 2015 houve melhoria significativa no custo. Mas a gente acredita que tem mais potencial.

ÉPOCA: No fim das contas é um estádio que ainda dá prejuízo e vai precisar de investimento para melhorar o custo. A CSM tem porte financeiro para aguentar o tranco?
Cadu Ferreira: Sim. Nosso grupo tem porte. Quando você fala que ainda dá prejuízo, na verdade deu prejuízo naquele modelo de gestão anterior. A gente acredita que esse estádio é para estar no break-even [no azul] no ano um e dando lucro a partir do ano dois. Mas vamos supor que a gente tenha um ano de prejuízo. Isso está sendo considerado e temos um grupo de empresas sólido para fazer frente a esse tipo de situação. Na Copa do Mundo, mais de 20 mil pessoas trabalharam para a gente, fizemos toda a gestão de bares dos 12 estádios da Copa, fizemos toda a gestão de hospitalidade na Copa nos 12 estádios nos 64 jogos. Agora na Olimpíada, trabalhamos para sete dos principais patrocinadores olímpicos. Não somos uma empresa pequena. Temos uma operação no Brasil de porte razoável. Claro que o Maracanã é muito grande. Esse é um negócio que pode, se for mal gerido, gerar prejuízos importantes, como aconteceu nos três primeiros anos do complexo, mas a gente entende que o modelo que montou aqui não tem por que repetir essa situação.

ÉPOCA: E se repetir?
Cadu Ferreira: Muito importante não cair na tentação de fugir da regra do jogo. A regra do jogo é muito clara. Quem pode comprar esse complexo? Qualquer empresa ou grupo de empresas que atendam aos pré-requisitos originais da licitação lá de trás. O requisito financeiro, de porte, que se exigia é que a empresa ou o grupo apresentassem capital de R$ 78 milhões. Esse ponto está atendido. Absolutamente todos os pontos nós atendemos com o nosso consórcio. Não tem nenhum ponto que a gente deixa de atender. Estamos falando de R$ 78 milhões. Nós temos. Estamos falando de comprovação de gestão de pelo menos dois anos de estádio com 20 anos. A gente tem. Só a Amsterdam Arenas entra com a gestão de um dos principais estádios da Europa, o do Ajax. A própria AEG se resolver ficar foi inclusive a empresa que credenciou o consórcio vencedor na licitação original. Quando você olha o edital... Não adianta falar em ter tamanho. Tem de olhar a regra do jogo. Nós cumprimos e temos contrato com os dois principais clubes. Nossa proposta é imbatível.


LAGARDERE

A Lagardére é representada por Flávio Portella, brasileiro que ocupa o cargo de diretor de arenas para o Brasil e a América Latina. A companhia francesa preza pelo modelo que formulou para as outras 50 arenas esportivas que administra no resto do mundo: ela se ocupa da administração do estádio, mas fica por trás das cortinas, enquanto os clubes participam do resultado financeiro e atuam como protagonistas. Vai ser difícil botar a fórmula em prática no Maracanã. O Flamengo bate o pé há meses para participar efetivamente da gestão do estádio. Portella afirma, na entrevista a ÉPOCA, ter convicção de que a Lagardére convencerá o clube de maior torcida do país a mudar de ideia. “Sempre existe um preconceito, porque o mercado de arenas é novo e tem apenas dois anos, então alguns clubes têm medo, mas no curto prazo isso é vencido e a parceria funciona”, afirma o diretor da Lagardére.

ÉPOCA: A Lagardére negocia com a Odebrecht para assumir o Maracanã. Qual o plano?
Flávio Portella: A gente tem o interesse. A gente está no processo desde 2013. Participamos da licitação inicial, ficamos em segundo lugar e, desde lá, o Maracanã sempre esteve no nosso radar. Nosso core business é gestão de arenas. Com essa posição da Odebrecht de sair do negócio, logicamente voltamos a ter interesse. A ideia é assumir a concessão conforme as regras do contrato, tudo o que envolve uma concessão.

ÉPOCA: Digamos que fechem. A transferência da concessão envolve valores?
Flávio Portella: Não posso falar de detalhes, porque envolve confidencialidade, mas vou dar um resumo. É uma operação privada a princípio, porque a concessão é de uma empresa privada, então os dois privados definem um valor que pode ser zero ou um, e o governo, como verdadeiro dono do equipamento, dá anuência conforme as regras do edital. E aí passa por todo o processo do edital, que prevê qualificações técnicas e financeiras, como se fosse uma licitação nova. E aí com a anuência do governo você pode fechar e transferir.

ÉPOCA: As regras da licitação permanecem iguais?
Flávio Portella: As regras são as mesmas. Têm de atender às qualificações técnicas e financeiras exigidas em 2013, e o contrato de concessão permanece o mesmo conforme os aditivos que foram feitos no período, mas é o mesmo objeto.

ÉPOCA: A Odebrecht teve problemas porque a concessão previa estacionamento, shopping, mas o governo voltou atrás. O que sua empresa fará em relação a isso?
Flávio Portella: A gente vai atender às demandas do governo conforme o contrato exige. Não posso dar detalhes do plano de negócios, porque é muito longo, mas ele envolve as regras do contrato de concessão, os investimentos previstos, o retorno que o governo recebe por ter investido no equipamento.

ÉPOCA: Mas o estacionamento, o shopping...
Flávio Portella: Isso já saiu, não é? Tanto o parque aquático [Júlio Delamare] quanto o estádio de atletismo [Célio de Barros] continuam. Hoje já tem outro escopo. Vamos fazer novos investimentos, direcionados para outros fins, conforme o contrato de concessão.

ÉPOCA: Pergunto porque era uma parte importante do negócio da Odebrecht. Ela diz que não é capaz de fazer dinheiro sem isso. Como deixar o negócio em pé?
Flávio Portella: Nosso plano de negócio é muito amplo. Esse é nosso diferencial. Experiência de 20 anos de mercado, 50 arenas. Posso adiantar que vai ser um plano 360 graus que envolve, lógico, futebol como um dos principais ativos da arena, mas há grandes shows, eventos, feiras, a vida 24 por sete, museu, e assim vai. Vamos posicionar a arena na escala Brasil e na escala mundo. Colocá-la no mapa nacional e internacional.

ÉPOCA: A concessão prevê acordos com dois clubes. O acordo que o Fluminense tem com a Odebrecht foi herdado do jeito que é?
Flávio Portella: Ele é um contrato que está ativo. Podemos manter ou podemos melhorar. Depende das partes.

ÉPOCA: Os senhores já conversaram com o Fluminense?
Flávio Portella: Existem cláusulas de confidencialidade, então eu não posso entrar em detalhes, mas existe uma conversa em geral com os clubes.

ÉPOCA: Como os senhores preveem o relacionamento com os clubes? Vai ser no molde de hoje: dividir receitas e despesas, direitos e obrigações?
Flávio Portella: O que posso adiantar é que nossa experiência tanto com Brasil como fora é voltada em prol do clube. Nossas 50 arenas, todas têm um clube parceiro. Nossa filosofia é o clube focar no core business dele, o futebol, os jogadores, a estrutura, a base e não se preocupar com a gestão da arena em si. Não se preocupar com o ônus da arena, o custo da operação, mas participar do resultado. Só te falo que com certeza, isso passamos em todas as operações, sempre existe um preconceito inicial, porque o mercado de arenas é novo e tem apenas dois anos, então alguns clubes têm medo, mas no curto prazo isso é vencido e a parceria funciona. Todo mundo sai ganhando. O clube é protagonista dentro do palco.

ÉPOCA: Isso funciona  no resto do mundo?
Flávio Portella: Com o Borussia [Dortmund, da Alemanha], por exemplo, você não sabe quem é o operador da arena porque quem aparece na frente é o Borussia, mas a operação é nossa. A gente não é uma empresa que tem de estar na frente, mas atrás, dando suporte onde o clube não teria nem capacidade nem tempo de atuar.

ÉPOCA: Com o Flamengo a situação é mais complicada. O Flamengo gostaria de participar da administração e tem se posicionado publicamente contra a transferência da concessão. Os senhores conversaram com o Flamengo alguma vez?
Flávio Portella: Já tivemos conversas preliminares com eles lá atrás. O que a gente enxerga é um pouco de preconceito inicial, mas tenho certeza, e o pessoal que administra o Flamengo tem muita visão, capacidade técnica, de gestão mesmo, além do futebol em si, de que vamos achar um modelo ótimo para o clube. Que a conta feche, que vai melhorar. É uma questão de tempo. Tudo pode mudar. Não existe regra definitiva que não tem outro lado. Já enfrentamos em outros lugares e estamos acostumados com isso. No Brasil é muito novo, e tudo o que é muito novo fica mais complicado.

ÉPOCA: Se o Flamengo cumprir o que diz e não jogar no Maracanã , o negócio fica de pé?
Flávio Portella: O Maracanã é viável sem o Flamengo e é muito mais viável com o Flamengo. Sem dúvida. Não vou distorcer as coisas. Vamos ser transparentes.

ÉPOCA: A viabilidade do Maracanã é questionável. Ele é o estádio com as maiores receitas do país nos últimos anos, mas há prejuízos enormes. Os senhores conversaram com a Odebrecht?
Flávio Portella: Não vou entrar no mérito de como foi feita a gestão no passado. Eu sei que a gente tem o nosso modelo, estamos de olho no futuro, a conta fecha, e estamos usando uma planilha de células com toda a experiência desse grupo que está no mercado há décadas.

ÉPOCA: O senhor pode adiantar algo sobre o plano de negócios? Como farão dinheiro?
Flávio Portella: Não é o naming right, o estacionamento... É uma somatória de coisas e uma gestão de custo eficiente. Não dá para falar tudo em alguns minutos. A ideia é fazer uma gestão responsável. Temos uma empresa com experiência e força financeira para suportar tudo isso.

ÉPOCA: A Lagardére está pronta para alguns anos de prejuízo no início?
Flávio Portella: Aí falo como brasileiro. O brasileiro tem visão de curto prazo, eu sempre tive, e dentro desta multinacional aprendi a entender que a visão é de longo prazo. São 32 anos de concessão. Existe uma equação de investimentos, e isso faz parte. Se houver um tempo de prejuízo para criar o ativo, desenvolver... Existe uma curva. Não chamamos de prejuízo. Chamamos de investimento. Depois vamos entrar num cruzeiro mais estável. Temos de olhar para os 32 anos.

ÉPOCA: Em 32 anos Flamengo e Fluminense podem cumprir seus projetos particulares de construir estádios próprios. Os senhores consideram essa hipótese?
Flávio Portella: A gente considera, mas isso de construir estádio próprio virou moda. Se a parceria for sólida, se os clubes tiverem retorno, nem faz sentido o clube investir em estádio. Existem diversos modelos em que o clube participa da operação, contamina, e isso está atrapalhando o futebol. A gente considera, mas a gente acredita mais na parceria. O Maracanã do jeito que é, inserido na metrópole do Rio de Janeiro, não faz sentido sair construindo um monte de estádios. Tem de otimizar um onde vários clubes podem usar. Isso acontece muito na Europa e nos Estados Unidos e funciona muito bem. Você nem sabe que o clube não é operador do estádio porque ele participa do resultado, mas não tem de colocar dinheiro, ficar indo atrás de investidor, tirar dinheiro do jogador para pagar o estádio.

ÉPOCA: A Luarenas é uma união da Lagardére com a BWA. Como os senhores dividem as tarefas?
Flávio Portella: A Lagardére veio para o Brasil em 2014, adquiriu os ativos que a BWA tinha participação, absorveu o know-how, mas toda a filosofia, a estrutura, as práticas anticorrupção hoje são da Lagardére. Toda a prática da operação foi trazida de fora. A gestão tem a cara da Lagardére 100%. Não existe divisão de tarefas, mas uma regra única.


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